Formas Poéticas

 

Os barrocos brasileiros usam formas poéticas como o soneto, que é a mais usada, em regra obedecendo aos modelos petrarquianos, de rimas ABBA - ABBA - CDC – DCD ou sua variação CDE - CDE nos tercetos, bem como CDE - DCE, mas o modelo prevalente é o primeiro, de apenas 4 ordens de rimas. No soneto, praticam artifícios como o acróstico, o biacróstico (isto é, combinação de acróstico com mesóstico, como no Áureo Trono, Soneto do Rev. José de Andrade e Morais, D. F. Manuel da Cruz, Bispo de Mariana) e até o "quater acróstico", disso tudo havendo exemplos tanto na Academia dos Esquecidos como na dos Seletos. Nos Gemidos Seráficos por ocasião das exéquias de D. João V na Bahia e Pernambuco (Lisboa, 1755) há uma inscrição (em latim) cinco vezes acróstica e um epitáfio, também e latim, acróstico, mesóstica e teléstico (este bem mais raro) todos lendo Joannes. Fazem centões, em geral extraindo e combinando versos dos Lusíadas, são aptos a organizar labirintos, como o de Anastácio Aires de Penhafiel, escrevem quintilhas, oitavas e décimas, canções, tercetos, romances, silvas, endechas, redondilhas de quebrados, madrigais, seguidilhas, odes. Gregório de Matos, para citarmos um poeta de maior categoria, usou do soneto caudado, do epigrama com perguntas e respostas em eco (Obras, IV, 261), da composição em versos truncados (de cabo roto, IV, 68):

 

"Deixe, senhor beato, a beati

Que se a via do céu é via sa

Ninguém o pode crer nesta cida

Por ser você da costa israeli

 

Os poetas da época são capazes, ainda, de divertir-se fazendo composições lipogramáticas, como Antônio Ribeiro da Costa, um Esquecido que ora exclui de suas poesias a vogal A, ora as vogais E e I, ora as vogais O e U. Adotam em geral a rima grave, mas usam os consoantes agudos e esdrúxulos, com finalidade jocosa; quanto às rimas graves (e mesmo agudas), variam as vogais para obter o tom burlesco, armando terminações em a, e, i, o, u, ou em acha, echa, icha, ucha; apa, epa, opa, upa; aco, eco, ico, oco, uco, etc. Um dos barrocos, o acadêmico Feliz, Seleto e Renascido Mateus Saraiva, foi satirizado pelo secretário dos Seletos, Sequeira e Sá, por abusar dos agudos, e outras licenças. (Na verdade, Gregório de Matos e alguns Esquecidos usam rimas agudas sem objetivo burlesco). Mateus Saraiva não era porém tão cândido como supunha o secretário; tanto que fundamentou o seu procedimento em carta dirigida ao mesmo Sequeira, constante dos Júbilos da América, pág. 30. Nessa carta, afirma Saraiva:

"Muito mais preciso se me faz expor, que em usar de alguns agudos em Sonetos obro sem o criminável no Tribunal dos Acadêmicos, e estribado em três relevantes argumentos; porque, Primo, o erudito Autor Francisco José Freire, que em 748 deu ao prelo a sua Arte Poética com vasto, e relevante estudo, e erudição, fazendo muitas, e peregrinas advertências sobre Poemas, nenhuma faz a respeito de condenados alguns agudos entre versos de onze sílabas: Secundo, porque o Espanhol João Dias Rengifo na sua Arte Poética, Parte segunda, no fim do capítulo 22, acerca dos agudos os admite em diversos lugares dos Poemas Heróicos, pois diz: Y dado caso, que la lengua Italiana careciesse de vocabulos agudos, la nuestra tiene abundacia de ellos, con que puede acabar muchos versos, los quales, aunque no sean tan elegantes, y sonoros, como los de onze syllabas, pueden se usar algunas vezes sin escrupulo, y sin que para ello sea necessaria licencia.

"Em terceiro lugar, o terceiro, e poderoso argumento para admitirmos alguns agudos entre versos Heróicos, e Líricos, ou Poemas desta, ou daquela classe, consiste em verem-se impressos modernamente em relevantes Empresas; porque na que se deu à luz sobre os felices progressos da Rainha de Hungria, composta por um Erudito Religioso, e em dilatado volume de quarto impresso em 743, traz, entre outras Obras Heróicas, um Soneto, que principia da maneira seguinte:

 

Rainha Augusta em tudo respeitada,

Esse retrato inculca teu poder:

Para o mundo a teu Cetro se render

Basta só ver-te o mundo retratada.

 

E nas Obras Acadêmicas: Guimarães Agradecido, Parte segunda, dada ao prelo em 749, se acham Poemas Heróicas, e Líricos com versos agudos entre os de onze sílabas; assim que, alguns, que se acham em alguns dos meus Sonetos, têm par si os referidos argumentos, a respeito de ter ouvido a alguns curiosos que não se admitiam já."

Tomado como curioso, o Secretário, no próprio cabeçalho com que introduz a carta, assevera que a defesa de Saraiva, "certamente infeliz" ("sed infeliciter quidem"), "ignora o parecer dos eruditos de gosto mais delicado, qual Inácio Garcez Ferreira no Aparato preliminar à Lusíada de Luís de Camões, Lib. 2 Cap. 13 num. 14 & lib. 3 cap, 18 n. 10". A questão, como tantas outras, cifrava-se em observar ou não a moda, e o Secretário tomava como dogma o que nem sempre o fora, mesmo em português, apesar do predomínio das palavras graves na língua. "Na introdução às Poesias de Sá de Miranda, que empregava bastantes rimas agudas - escreve D. Carolina Michaelis de Vasconcelos[1] -, mostrei que nisso o Reformador e introdutor do estilo italiano seguia a moda antiga da escola velha. Desvendei então o caso imprevisto que no primeiro período da literatura nacional, essas rimas agudas prevalecem de modo surpreendente. De seis mil e tantos versos do Cancioneiro da Ajuda mais de cinco mil têm rimas oxítonas!"

Depois da proscrição renascentista dos agudos, e dessa controvérsia barroca, admitiu-se a partir do neoclassicismo a alternância de rimas graves e agudas nas várias estrofes das composições, como se vê em Gonzaga, ou, mais tarde, em Machado de Assis. Os parnasianos ainda guardaram certa simetria nesse emprego (se um soneto tinha agudos nas quadras, tinha também nos tercetos), embora admitissem alguns abrandamentos, como p. ex. o de não haver agudos nas quadras mas surgirem estes nos tercetos; já com os simbolistas a distinção entre agudos e graves, em matéria de limitações ao uso dos segundos, perde a validade, observando-se a mesma liberdade na poesia moderna. A verdade, em que o Secretário dos Seletos acreditava tão entranhadamente, não passava de figurino que os tempos alteraram com enorme facilidade e sem nenhum escândalo. No caso, o pró-físico Mateus Saraiva é quem estava com o facho inovador.

Quanto às aparentes irregularidades do barroco nacional, são de assinalar alguns procedimentos como o das assonâncias, em que o i não funciona: assim em edifício, vivos (i-i-o, i-o), facundos, Mercúrio (u-o, u-i-o), pintada, várias (a-a, a-i-a), instrumentos, silêncio (e-o, e-i-o), como se observa nos Códices dos Esquecidos. Há síncopes não assinaladas ("Mil excelências do General famoso", exc'lências ou gen'ral; "Claros Diamantes com diferença pouca", dif'rença; "Se vês lograda toda a tua esperança", esp'rança; "E nos séculos eternos esse obelisco" (Breve Compêndio, séc'los e ob'lisco); "O belo de Raquel lhe oferece as rosas", Áureo Trono, of'rece, etc.) ; sinalefas do ditongo ão com vogal, p, ex, em "Senão a vossa memória ilustre, e clara", contando-se 1 sílaba em não a, "Pois levam os erros meus afetos", vam os, 1 sílaba, ou da vogal o acentuada com a, "Só a Demóstenes mais, que a toda a Grécia" (Só a, 1 sílaba). Surgem, a confundir-se com o caso "levam os" (grafava-se levão), as ectlipses, assinaladas

Pois se vê com ventage' assaz notória (André de Figueiredo Mascarenhas),

 

ou não:

 

Para que vos respeitem as monarquias (Áureo Trono).

 

Há também "sílabas perdidas", p. ex, no verso de João Machado Barcelos, um dos Esquecidos:

 

Se de berço a Fênix serve o Monumento,

 

no qual a 1a. sílaba, Se, não se conta; ou no do Acadêmico Ocupado, Luís de Siqueira da Gama:

 

Como, Agripina, como assim, matrona,

a morte buscas, a vida desprezando?,

 

no qual o a inicial do segundo verso embebe-se na sílaba final do verso anterior, indo também perdido.

Há ainda os suarabáctis, de prestigio iomântico depois, como no v. do Pe. Manuel Cerqueira Leal: "Admirem-se pois fiquem pasmados", lendo-se "a-di-mi-rem-se".

Os barrocos não se preveniam muito contra cacofonias e parequemas, como no caso de Itaparica, "Olimpo puro (estr. XXVII da "Descrição da Ilha", etc., "por rubicundos" (estr. LXVI), ou mesmo Gregório: "Formosíssima Maria", que combina com aquele "Puríssima Maria" do poeta de bem menor valia, José Lopes Ferreira, dos Renascidos.

Surgem por fim os casos de simples canhestrice, que são relativamente poucos nos códices dos Esquecidos, se atentarmos para suas alentadas folhas: entre esses poetas inexpertos não será difícil arrolar o próprio Pe. Manuel Cerqueira Leal ou Antônio Dias da Franca. Em diferentes circunstâncias, não se pode ao certo asseverar se se trata de sílaba perdida ou acentuação irregular, como no caso dos poetas de melhor categoria. É o que se dá em "Porém cesse Europa já o seu gemido", de Inácio Pires da Silva, com anacruse da 1a. sílaba ou então acento na 5a. sílaba; "A seguir-lhe a chama, e a imitar-lhe a vida", de Anastácio Aires de Penhafiel, indo perdida a 1a. sílaba ou tendo o verso acento na 5a. sílaba. Outras vezes parece inarredável a acentuação na 5a. sílaba, como no 1o. verso do soneto de Júlio de Melo de Castro no Breve Compêndio.- "Só vós podereis, descrevendo a história", caso esse verso esteja bem reproduzido em - Castelo (José Aderaldo, O Movimento Academicista no Brasil, São Paulo, C.E.C., vol. III – tomo I , pág. 85).

Observam-se diéreses, como em "Permitam-me um louvor adequado" (Gonçalo Fernandes Gomes), com a partição do ditongo crescente de qua em hiato, u-á, partição essa confirmada por outros exemplos, entre os quais os vv. "Ao brincar com todos", de Rocha Pita (6 sílabas) ou "Cai logo coberto" (também de 6 sílabas e do mesmo autor).

Gregório de Matos empregou o eneassílabo anapéstico (verso de 9 sílabas, acentuado na 3a., 6a. e 9a.), por longo tempo conhecido como "verso de Gregório de Matos", e na famosa sátira "Marinícolas" alternou-o com versos hendecassílabos iâmbico-anapésticos ou trocaicos. Esses versos só voltariam à baila durante o nosso Romantismo (versos de arte maior irregulares encontram-se na Narração Panegírico-Histórica (1760), como se vê em Castelo, op. cit., vol. III, tomo 3, pág. 223).



[1] Lições de Filologia Portuguesa, Lisboa, Revista de Portugal, 1946, pág. 59.